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Celso Ming

Tarifaço, caos ou, talvez, não tanto

31 de Março de 2025 às 21:30
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. (Crédito: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP)

Passou a significar pouca coisa repetir que as incertezas aumentaram. A mistura de percepções é de confusão e de escuridão. Para esta quarta-feira (2), o presidente Donald Trump prometeu um tarifaço alfandegário, cujas proporções ninguém consegue prever.

Governos, bancos centrais, consultorias e empresas ainda não têm ideia do que virá. É como dirigir à noite no meio de intenso nevoeiro em uma estrada mal sinalizada e coberta de neve.

Como sempre, nessas condições, há os que apostam que as coisas não serão tão drásticas, até porque o presidente Trump ora ameaça com dentadas e, logo depois, sugere que tudo é negociável. Outras apostas são de que virá o caos na produção e nos fluxos de distribuição e, a partir daí, recessão e inflação (estagflação). E há a turma da coluna do meio, que também não sabe onde fica esse meio.

Não há clareza sobre qual é o objetivo estratégico de Trump com esse superprotecionismo. Se procura apenas certo reequilíbrio comercial entre países e blocos; se partirá para a imposição de nova posição hegemônica, dentro do seu princípio ‘America first’; ou se irá se contentar em passar a impressão de que está fazendo o que prometeu sem, no entanto, forçar demais a barra.

A ideia declarada é trazer de volta para os Estados Unidos empresas e investimentos em infraestrutura para criar mais empregos. No regime capitalista, investimentos sempre implicam assumir certos riscos. Mas, para navegar e tomar decisões, os dirigentes de empresas precisam de bússola e de GPS, instrumentos que hoje lhes foram negados. Como um conselho deliberativo de uma empresa pode autorizar a instalação de uma fábrica de motores se não sabe quanto tempo podem durar essas tarifas. Uma fábrica dessas precisa de pelo menos quatro ou cinco anos para iniciar a produção.

O governo brasileiro parece confuso, tanto na avaliação das ameaças para o comércio exterior e para a economia do Brasil, quanto no tom de eventual reação. O presidente Lula começou por sugerir uma retaliação, dentro do princípio de reciprocidade. Na semana passada, disse, no Japão, que pode recorrer à Organização Mundial do Comércio, o que seria atitude potencialmente inútil.

Outra suposição de autoridades do governo, como a do vice-presidente, Geraldo Alckmin, é a de que o Brasil não teria muito a temer, porque importa mais do que exporta para os Estados Unidos. Mas pode não ser por aí. Dificilmente o objetivo do presidente Trump se limitará a zerar um déficit comercial. Se for o de equalizar tarifas médias, o Brasil estará vulnerável.

A ordem econômica global que prevaleceu até aqui está ameaçada. Não dá para saber agora o que virá pela frente.

Celso MIng é comentarista de economia.